Blog dum gajo do Porto acerca de gaijas, actualidade política e sem futebol. Aqui o marmelo não gosta de futebol

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

O Sousa hoje deu-lhe para a literatura.

Era sua íntima amiga. Tinham sido vizinhas, em solteiras, na Rua da Madalena, e estudado no mesmo colégio, à Patriarcal, na Rira Pessoa, a coxa. Leopoldina era a filha única do Visconde de Quebrais, o devasso, o caquético, que fora pajem de D. Miguel. Tinha feito um casamento infeliz com um João de Noronha, empregado da Alfândega. Chamavam-lhe a “Quebrais”; chamavam-lhe também a “Pão e Queijo”.
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios. Jorge odiava-a.
E dissera muitas vezes a Luísa: tudo, menos a Leopoldina!
Leopoldina tinha então vinte e sete anos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem-feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica, sem largueza de roda, apanhados atrás. Dizia-se dela com os olhos em alvo: é uma estátua, é uma Vênus! Tinha ombros de modelo, duma redondeza descaída e cheia: sentia-se nos seus selos, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na pele, muito tina, dum trigueiro quente e corado, havia sinaizinhos desvanecidos de antigas bexigas. A sua beleza eram os olhos, duma negrura intensa, afogados num fluido, muito quebrados, com grandes pestanas.
Luísa veio para ela com os braços abertos, beijaram-se muito.

...


— Isto é um vale de lágrimas! — resumiu Leopoldina, recostando-se.
Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do colégio! Que bom tempo!
— Lembras-te quando estivemos de mal?
Luísa não se lembrava...
— Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento — disse Leopoldina.
Puseram-se a falar dos sentimentos, Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha, a Freitas. Que olhos! E que bem-feita!
Tinha-lhe feito a cone um mês!...
— Tolices! — disse Luísa corando um pouco.
— Tolices! Por quê?
Ai! Era sempre com saudades que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes!
Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida!
— Nunca — exclamou — nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!... Pois podes crer...
Um olhar de Luísa deteve-a. — A Juliana! Diabo! Tinha-se esquecido! Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura
de peito chato, o tique-taque metálico dos tacões.
— E que foi feito da Joaninha? — perguntou Luísa.
Morrera tísica — e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem triste, não era? Mas não lhe tinha medo, ela! Batia no seio, bem formado:
— Isto é rijo, isto é são!
Juliana saiu, e Luísa observou logo:
— Vê no que falas, filha! Tem cuidado!
Leopoldina curvou-se:
— Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razão! — murmurou.
E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!
— Bravo! Está soberbo!


O Primo Basílio, Eça de Queirós

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